Sei que alguns de vocês vão aproveitar o feriado para saírem de Lisboa... mas sexta há aula.
E teremos um convidado - um crime de oportunidade. O meu amigo Dean Trdak, tradutor para croata de muitos escritores portugueses (Lobo Antunes, Afonso Cruz, José Luís Peixoto etc.) está em Lisboa e convidei-o para vir, informalmente, falar connosco. De tradução, de festivais, de apoios, da ligação de um croata à edição portuguesa.
2. A edição é uma visão geral, a revisão uma edição aproximada, de pormenor. Um dos maiores obstáculos é que os nossos olhos (ou talvez seja o nosso cérebro) «corrigem» o erro. Da mesma forma, a preocupação com problemas maiores pode fazer-nos esquecer os pormenores.
3. Áreas há em que a pressa - o queimar os prazos - é emocionante. Liberta feromonas (ou outra coisa qualquer que liberte). Mas com um texto - por mínimo que seja - há que deixar pousar. Deixar arrefecer. É difícil (falo por experiência própria) mas é uma regra tão, tão essencial.
3.1. Mesmo num post para o FB, dou por mim a, minutos depois, descobrir que numa minúscula frase faltava uma vírgula, havia um ponto a mais, tinha colado palavras - ou (aqui já é trabalho de edição, neste caso auto-edição) simplesmente havia uma frase que faltava, uma forma melhor de dizer, um parágrafo a mais e que era escusado ter lá.
3.2. Tudo isto é «a olho», ou seja, não é objectivo. Objectiva é a confiança nas nossas capacidades - o meu currículo mostra que, a maior parte das vezes, sei fazer aquilo? sou escrupuloso q.b.? - mas não a aplicação dessas mesmas capacidades.
4. «Jorge, qual me fica melhor? O casaco verde ou o azul? E qual condiz mais com estas calças? Qual destas três gravatas devo pôr?» Até em coisas triviais ficamos baralhadinhes. (Talvez não tenha reparado que há um e errado em baralhadinhos. Vê?)
5. O ideal é apanhar o erro antes de ele ter ido para impressão final. Mas, se for, não fiquemos muito tempo a pensar nisso. Está feito. Foi um erro estúpido - os erros nem sempre são geniais, embora também aconteça - mas não foi mortal, não é crime de sangue, apenas de tinta.
6. Importante, para mim, é responder à pergunta: gosto do que faço? Parecendo ridícula, esta pergunta é essencial. Jogadores de futebol que estavam todos rotos andam de repente aos pulos quando a equipa marca um golo. De onde vem aquela energia? (E não, não é uma questão metafísica, é eminentemente prática.)
[Continua, tenho mais coisas para dizer sobre o assunto. E, por favor, comprem um livro de fábulas. Não é próprio de uma universidade ver-me obrigado a contar as fábulas da raposa e da cegonha, da águia e da mãe-mocho, da raposa e do corvo. Esta por sinal aplica-se também muito à nossa área: ia uma raposa a passar quando vê empoleirado numa árvore um corvo com um belo queijo no bico...]
P.S.) Recebi mais um mail com as moradas incautamente desprotegidas. Lá enriqueci a minha 'mailing list'. Reconhecem alguns nomes? São 'opinion makers'. Pode ser importante enviar-lhes um dos 100 livros que fizemos (está no contrato) para promoção.
0. Marcação das aulas de compensação
Por mim, podem ser noutro dia que não à sexta. 1. Exercícios
1.1. Versão da prova cega agora com editores:
Hermínio Monteiro, Vítor Silva Tavares, Francisco Espadinha, Guilherme Valente, Francisco Lyon de Castro, Rui Pena Pires, Manuel Alberto Valente, Maria do Rosário Pedreira, Zeferino Gomes, Paulo Ferreira, Carlos da Veiga Ferreira, Marcelo Teixeira, Cristina Ovídio, Nelson de Matos, Vasco Teixeira, Ana Pereirinha, Francisco Vale, Zita Seabra, Nelson de Matos - estes são apenas alguns dos protagonistas (uns maiores, outros menores) da edição nas últimas décadas. Nem todos estão ainda vivos mas todos têm histórias.
(Quantos poderíamos sem esforço recordar e associar a que editoras?)
1.2. Dica para casa: ver as páginas de Goofs (calinadas) em filmes. Muitas têm equivalente óbvio num texto. Por exemplo, aqui.
2. Alguns modelos de contrato - e de ficha técnica. Conforme prometido, serão mostrados modelos de contrato.
3. Regras básicas de promoção - é o que podemos aprender.
4. Para acabar de vez com o pensamento mágico:como trabalhar um livro?
4.1. Controlo de qualidade - «editar livros bons» - mas o que um livro bom? Bem feito/bem escrito?
4.2. Livros que o mercado quer - mas o que é um «livro que o mercado quer»?
4.3. Competências reais - em que parte da cadeia de produção posso eu entrar e fazer a diferença?
Dicas (correndo o risco de me repetir):
- Um adulto tem uma noção aproximada e razoável do que pode/não pode fazer
- Aprender a sinalética da revisão não faz de mim um bom revisor
- Ter modelos ajuda, prevenir erros mais comuns também, mas...
- Usar modelos pré-formatados para o que não exige grande esforço intelectual, a fim de guardar as energias para o que de facto o merece
- Cada livro é um prototipo, ou seja, uma nova aventura, mas
- Rotinas têm de ser estabelecidas sob risco de colapsarmos ao fim de uma semana.
5. O drama dos prazos ou «Convém preparar o Natal em Março»- quando fecham as revistas de Dezembro?